ANGELOLOGIA ONTEM… E HOJE?

Falar sobre os anjos sempre foi e sempre será um desafio, levando-se em conta que os anjos não podem ser colocados num laboratório e serem submetidos a experiências racionais a qual estamos acostumados. O máximo que se pode fazer num estudo da angelologia é analisar os conceitos teológicos e suas manifestações.

É preciso estudar a “Angelologia Ontem” no sentido de procurar perceber o desenvolvimento gradativo desta doutrina já no Antigo Testamento, mais precisamente antes do povo hebreu ir ao exílio Babilônico e Persa; nos períodos do Novo Testamento e pós-apostólico, quando várias controvérsias teológicas envolvendo os anjos surgiram no meio eclesiológico, indo até o período da chamada Reforma Protestante –  marco na vida da história da Igreja Cristã -, e em especial, no protestantismo.

Por outro lado, faz-se necessário estudar a “Angelologia Hoje” procurando analisar a angelologia contemporânea em seguimentos religiosos tais como o Islamismo – na atualidade,  a religião mais crescente no mundo -, o Esoterismo – principal segmento místico cuja ênfase atual é dada aos anjos -, no Catolicismo – tida como a religião oficial de muitos países, inclusive no Brasil -; e entre os evangélicos, principalmente no meio Pentecostal – um dos mais crescentes movimentos nas camadas sociais atuais -, e por fim, entre os chamados Evangélicos Tradicionais, cuja característica é a possibilidade de ter uma Teologia equilibrada.

Este não é um tratado da Angelologia; muito menos uma tentativa de elaborar de maneira dogmática e sistemática a doutrina dos anjos. Pelo contrário, nossa proposta, é tentar buscar analisar através da Bíblia e do desenvolvimento histórico-teológico se os atuais conceitos da angelologia e os movimentos contemporâneos vindos de uma doutrina angelológica têm se afastado daquilo que se pode entender como revelação bíblica. Entretanto, faz necessário estudar a doutrina dos anjos hoje, em face do surgimento da temática atual. Alguns dizem que ”Os anjos voltaram!” e precisamos estudar de maneira menos mística esta volta, essa “Onda Angelical”.

 

A ANGELOLOGIA NO PENSAMENTO HEBRAICO

 

Literatura Canônica (Antigo Testamento)

            Muitas controvérsias existem acerca da origem da religião de Israel, e da influência das crenças de outros povos sobre a nação israelita. E, quanto à questão da angelologia vetero testamentária, ou, propriamente dita, dos israelitas, se faça necessário entender que desde os primórdios, a religião de Israel assume um compromisso com a doutrina dos anjos. Muito embora os conceitos da angelologia não eram bem elaborados teologicamente, o mais provável é que já existiam dentro do círculo religioso israelita.

Como toda nação oriental, a religião israelita apresentava-se como uma religião de conceitos progressivos que foram até certo ponto mutáveis dados os diversos contatos com os outros povos.

Podemos observar freqüentemente como a religião israelita  se transforma e evolui. Esta evolução é percebida do ponto de vista historiográfico nas elaborações dos conceitos teológicos dos escritos Javista, Eloísta, no Código Sacerdotal e na visão Deuteronomista. Quando, usando a crítica literária como base de observação, perceber-se-á o quanto evoluiu-se a visão religiosa dos fatos. Como exemplo, entende-se que a concepção Javista de Deus passa pelas seguintes transformações: Primeiro, ele é um Deus de proteção; depois, um Deus da guerra; e, finalmente, um Deus de Paz universal, cujo domínio abrange todo o mundo. O Deus de um grupo particular torna-se o Deus de uma nação, e em seguida, o único Deus de todas as nações. Esporadicamente, ele intervém nas batalhas; depois, age repetidamente na vida e destino de homens e nações, e, por fim, opera continuamente através de todo o domínio da natureza[1].  No início, a religião dos pais, depois, a religião do clã, da tribo de um povo, e, por fim, a de todos. Iahweh, primeiramente, é adorado em qualquer lugar; mais tarde, passa a ser adorado em numerosos santuários locais, e, finalmente, passa a ser adorado num único santuário. Este é um conceito gradativo-temporal, advindo da compreensão religiosa progressiva, adquirida ao longo da história.

Também, fazendo uso da arqueologia bíblica e os estudos da história oriental, é difícil não admitir que, em sua evolução, a religião de Israel não tenha sofrido influências externas de outros povos. A nação cananita foi uma dessas nações que influenciou Israel. Rica em seus simbolismos e no seu panteão de deuses pagãos, esta nação teve em toda história bíblica, principalmente nas visões de causa e efeito do “deuteronomista”, uma grande atenção, no sentido de que os israelitas não se deixassem influenciar pela religião cananita quando obtivessem contato com os mesmos, dada à possibilidade dela fazê-los desviar do caminho da religião monoteísta.

Mas, embora fossem seriamente advertidos quanto ao se deixar levar pelas crenças cananitas, Israel sucumbiu.

 Quanto a isso Georg Fohrer comenta:

“A religião cananéia revela um ponto de contato e semelhança com outras religiões do Oriente Médio… Ostenta também sua imagem peculiar, que a distingue de outras religiões. É uma religião nacional… Quanto ao seu conteúdo, é uma religião de vida e fertilidade renovadas e, como todas as religiões deste tempo, é sensual, orgíaca e cruel.”[2]

Ao discorrer sobre a forte influência religiosa dos cananeus sobre os israelitas, Gerhard V. Rad também descreve:

“Ao emigrar para as regiões agrícolas, as tribos levavam com elas, sem dúvida, um rico patrimônio de tradições religiosas… Mas como as tradições da época nômade acham-se, por um lado, inextricavelmente combinadas com as idéias da religião agrária cananéia e, por outro, foram sempre influenciadas e remodeladas pelas gerações anteriores e, por isso, impossível separá-las”.[3]

 

Além da religião cananéia exercer forte influência religiosa no sentido geral, houve uma influência específica no que diz respeito à compreensão da existência de seres intermediários. Os cananeus acreditavam em deuses maus ou demônios, tinham divindades locais espalhadas por toda a parte, e, acima delas, uma multiplicidade de deuses mais eminentes, adorados num bem organizado panteão ou hierarquia.

Assim, por exemplo, no panteão ugarítico, diz Fohrer, “El” ocupa a posição mais importante. Ele é o rei dos deuses menores ou os “filhos de El”; ele está acima de Baal, cujo significado era “Senhor”, “proprietário” ou “marido”, como também o nome do deus identificado como o senhor da fertilidade, da tempestade e da chuva.[4]

Quanto à formulação da crença nos anjos em si, alguns teólogos e estudiosos tais como Louis Berkhof[5] e Russel N. Champlim[6],  entendem que já no período pré-exílico Israel já a possuía, embora não descartem a influência cananita e, posteriormente, a influência no exílio babilônico e dos persas. Na verdade, tais afirmações partem da premissa de que Israel já cria na existência de seres intermediários ligados ao Deus dos pais, ou Deus do clã, embora esses seres fossem menores em poder. Com base nesta concepção da crença nesses seres intermediários serem pré-exílicas, a concepção que se chega é que o ocorrido, foi o processo natural de formulações teológicas mais bem elaboradas adquiridas nos períodos posteriores. Novas incursões teológicas puderam talvez, explicar melhor a angelologia em desenvolvimento e para isso fora atribuído nomes pessoais não somente a estes seres, mas, houve também, uma definição das suas funções e/ou ofícios.

Num reforço a essa concepção, Champlin afirma:

“As mais antigas evidências arqueológicas em favor da crença na existência dos anjos vêm de Ur-nomus, de cerca de 2.250 a. C., onde os anjos são vistos a adejar por sobre a cabeça do rei, enquanto este orava. Visto que Abraão chegou àquela região pouco depois disso, é possível que ele estivesse familiarizado com a angelologia desde a juventude. Como é óbvio, a angelologia estava misturada a todas as formas mitológicas possíveis, religiões e superstições primitivas, sendo crença generalizada entre todas as religiões da antigüidade.”[7]

 

Entender, entretanto, o surgimento da crença da angelologia dentre os povos, quer semíticos ou não, é tarefa difícil, tendo em vista as poucas evidências em manuscritos ou achados arqueológicos que possam servir de base para estabelecer uma razão mais pormenorizada de tal crença. Contudo, pode se estabelecer uma relação entre a concepção do relacionamento do deus adorado com o seu adorador e uma das conclusões a que se pode chegar é que a crença nos anjos no período pré-exílico pode-se ter originado da concepção da transcendência do Deus adorado, da revelação do “tremendum”. Nesta revelação e/ou relacionamento, o homem, é o ser imanente, portanto, indigno e impossibilitado por sua humanidade de se relacionar com o Deus que, além de reverenciado, inspira temor. Neste contexto de relacionamento, surgem os anjos, seres intermediários feitos para intermediar a comunicação entre Deus e o homem. Uma outra conclusão possível seria que a crença nos anjos, principalmente agora no período pré-exílico deu-se não somente pelo entendimento que se teve desses seres que intermediavam e falavam em nome de Iahweh, mas pela própria concepção e revelação divina.

[1]FOHRER, Georg. História da Religião de Israel, p. 18

[2]Ibd.  p. 48

[3]RAD, Gerard Von. Teologia do Antigo Testamento, p. 33

[4]FOHRER, Georg. História da Religião de Israel, p. 50

[5]BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática, p. 143

[6]CHAMPLIN, Russel Norman. O Antigo Testamento Interpretado vers. por vers., vol. 6, p.3790

[7]CHAMPLIN, Russel Norman. O Antigo Testamento Interpretado vers. por vers., vol. 6, p.3790.

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