SINAIS DE IRREVERÊNCIA NO CULTO EM MALAQUIAS

A maneira como se tem cultuado a Deus tem sido fator de observação de alguns pastores e educadores religiosos. Quase não ouvimos pregação a este respeito, e também, são poucas as publicações de autores que se preocupam com este assunto. Por isto, com este trabalho, quero contribuir para o preenchimento de uma lacuna, que a meu ver, tem crescido cada vez mais.

O afastamento dos princípios bíblicos e a necessidade de mantermos uma vida de adoração que verdadeiramente agrade ao Senhor, têm sido objeto de estudo por parte de alguns líderes que se sentem incomodados com o descaso nas formas de culto ao Deus altíssimo. Cada vez mais se percebe um abismo entre o que Deus quer e o que temos oferecido a Ele.

O Pr. Nilson do Amaral Fanini, em seu livro intitulado “Dez Passos Para Uma Vida Melhor”, mostra-nos que: “O culto é inato em toda a humanidade, mas este instinto de culto de adoração toma, às vezes, uma dimensão pervertida”[1]. É o homem se desviando do ideal de Deus. Esta dimensão cúltica pervertida que Fanini assinala, é chamada por Malaquias de irreverência.

Malaquias chama atenção com relação ao descaso para com o culto, e cremos ser este um dos fatores pelo qual a igreja tem mergulhado em uma crise profunda, transformando os cultos em meros encontros sociais e até desfile de moda. Deus tem sido colocado de lado.

Nosso desejo com este trabalho é o de alertar aos crentes quanto à maneira como temos cultuado ao Senhor, corrigindo as possíveis falhas e procurando não errar. Faremos isso por meio de observação dos exemplos contidos no livro de Malaquias.

A tarefa de contextualizar as observações contidas no livro de Malaquias, não é das mais fáceis, porém, não é de todo impossível. C. Lahr em seu livro Manual de Filosofia, vai afirmar que: “Observar é aplicar atentamente os sentidos ou a consciência a um objeto, para dele adquirir um conhecimento claro e preciso”[2].

No que tange a observação, C.Lahr vai afirmar ainda que: “a observação inteligente das coisas anda sempre acompanhada de algum trabalho sobre as idéias que sugerem. Concebe-se que a observação científica não se dá sem certa reflexão. Ela é analítica e fixa-se nos elementos que interessam”[3].

O culto a Deus prestado nos dias de hoje, tem fortes marcas de irreverência. Nilson Dimarzio em seu livro “Como cultuar a Deus”, observa que: “é necessário que durante o culto mantenhamos uma atitude consentânea com o local de adoração, uma vez que Deus está no templo”[4]. Também na mensagem profética de Malaquias, percebemos falhas por parte do adorador no tocante ao culto prestado a Deus. O profeta trabalha estas questões de irreverência e, se formos atenciosos, perceberemos o desejo de Deus com relação ao culto a Ele prestado em qualquer época e lugar. As marcas de irreverência contidas em Malaquias podem nos ajudar a não cometermos os mesmos erros, mas a cultuarmos ao Senhor Deus de maneira que lhe agrade.

Surgem neste ponto duas perguntas, as quais, tentaremos responder no desenvolvimento deste trabalho. Quais os sinais de irreverência no culto a Deus observados no livro de Malaquias, e quais as implicações disso para o culto cristão hoje?

            Com estas intenções, nos delimitaremos em apresentar as marcas da irreverência no culto vétero-testamentário abordadas na mensagem profética de Malaquias. A partir destas abordagens, buscaremos contextualizá-las a fim de que, também, observemos as marcas da irreverência no culto a Deus nos dias de hoje. Não iremos abordar outros livros proféticos e também não pretendemos fazer exegese do livro de Malaquias.

            Para um melhor entendimento, necessário se faz uma rápida definição de termos:

            a) Culto

Culto pode ser definido como homenagem de caráter religioso a seres sobrenaturais. É a forma de expressão de um sistema religioso. Cultuar a Deus, é render-lhe adoração, veneração. Significa ter uma experiência da presença de Deus, um reconhecimento da sua santidade e majestade, e dar uma resposta de obediência à sua orientação. O culto concretiza a vida religiosa do indivíduo.

b) Irreverência

Refere-se a tratamento desrespeitoso, grosseiro, zombaria. Portanto, em Malaquias, podemos observar a desrespeitosa maneira como Deus era cultuado.

c) Oráculo

Resposta de um deus a quem o consultava. Divindade que responde a consultas e orienta o crente. Palavra, sentença ou decisão inspiradora, infalível, ou que tem grande autoridade. Figura da pessoa cuja palavra ou conselho tem muito peso ou inspira absoluta confiança.

A irreverência no culto a Deus, na perspectiva do profeta Malaquias, vai chamar nossa atenção quanto à maneira como temos cultuado a Deus.

Ao olharmos para o Antigo Testamento, percebemos que a maioria das passagens referentes à adoração significam a prestação de um ato cultual de adoração a Deus, antes de mais nada, ao verdadeiro Deus. Deus é grande e sublime, e esta sublimidade deve ser reconhecida pelo apelo de “exaltarmos” a ele e prostrarmo-nos ante o escabelo de seus pés.

Admite-se, geralmente, que o culto tem a finalidade de estabelecer e manifestar, mediante seus símbolos e ritos, relação entre os homens e a divindade. Quer por magia, quer por sacrifício, quer por oração ou por outros meios, pensa-se que o culto deve criar, entre o mundo dos deuses e dos homens, intercâmbios proveitosos para ambos, ou seja, uma espécie de circuito de forças místicas e vitais, indispensável tanto aos deuses quanto aos homens. O culto, ocasião de encontro dos fiéis com as realidades mais ou menos impessoais às quais adoram, torna-se fonte de renovação e garantia de felicidade tanto para o céu quanto para a terra; raramente é desinteressado, pois pressupõe uma transação entre a humanidade e a divindade.

J. J. Von Allmem em seu livro “O Culto Cristão: Teologia e Prática”, afirma que: “O culto não é uma lição dirigida aos homens, mas sim um ato de louvor oferecido a Deus”[5].

As práticas religiosas suscitadas pelo desejo de entrar em relação com o mundo dos espíritos e dos deuses, são, não obstante seu grande número, de notável semelhança. É fácil descobrir, no decurso do tempo e espaço, uma coleção de ritos e mitos gêmeos. O homem seja babilônio, grego, chinês ou de qualquer outra etnia, choca-se com idênticos mistérios e confronta-se com os mesmos fenômenos; não deixa de se impressionar com as diversas etapas da vida humana, tais como o nascimento, a puberdade, a morte, a sucessão ininterrupta de dias e noites, com o ciclo regular das estações ou com o curso misterioso dos astros. Em quase toda parte praticam-se ritos parecidos de iniciação e purificação, celebram-se cultos agrários seguindo esquemas idênticos e, por ocasião das festas solenes, os fieis representam o mesmo combate das forças da luz e da vida contra as potências do caos.

O mundo bíblico não escapa à lei comum. No culto descrito pela escritura encontramos traços estranhamente parecidos com as cerimônias pagãs. Como as nações vizinhas, Israel possuía tempos sagrados como o sábado e a páscoa; lugares santos como os carvalhos de Manre e o templo de Jerusalém, pessoas consagradas como os sacerdotes e os nazireus (ministérios). Com as nações vizinhas, Israel conhece a circuncisão, os dias fastos e nefastos, os animais puros e impuros, as grandes cerimônias ao tempo da colheita e das vindimas.

Existem inegáveis correspondências entre os costumes religiosos do povo de Deus e dos povos pagãos próximos ou afastados, porém as evidentes semelhanças não devem nos encobrir o caráter específico do culto, segundo a Bíblia. Gestos e palavras podem ser os mesmos aqui e ali, mas o espírito que os anima é absolutamente diferente.

Para a Escritura Sagrada, o culto é serviço devido a Deus pelo povo escolhido, porém não limitado a certos gestos rituais ou cerimônias religiosas. Ele abarca todos os domínios da vida. Deus quer ser servido em todos os planos da existência humana, como testifica a legislação bíblica. O hebraico, língua original do Antigo Testamento, usa o mesmo termo para designar trabalho, serviço e culto; não há absolutamente qualquer divisão estanque, no pensamento bíblico, entre as fainas diárias e a adoração a Deus; desde as primeiras páginas as Escrituras unem estritamente o trabalho manual e o serviço do Criador. Na atual acepção estreita, portanto, culto designa apenas uma parcela do serviço extenso que Deus espera do seu povo; ou melhor ainda, tudo que os crentes fazem pode e deve constituir ato de culto, isto é, ato realizado em homenagem a Deus.

Servir a Deus é, para Israel e para a Igreja, ter relação com alguém. O Deus da Bíblia não é emanação da natureza, força cósmica qualquer, idéia racional ou moral, mas o Deus vivo que intervém na história dos homens e forma para si um povo com a finalidade de salvar o mundo. Israel, como depois a Igreja, tirado da escravidão, deve sua existência exclusivamente ao favor divino. Tendo sido escolhido para servir a Deus, somente tem sentido em função deste serviço. Uma aliança, selada em determinado lugar e momento, impõe para sempre as relações entre Israel, o povo eleito, e seu Deus; ambos os parceiros, agora intimamente reunidos, guardam sua original desigualdade: um ordena e outro obedece, um tomou e até o fim reivindica a iniciativa, o outro é apenas um convidado a caminhar humildemente com seu Deus. Nosso capricho, não pode de maneira alguma, determinar como o cultuamos. A Deus pois, pertence, e somente a Deus, o fixar e modificar as modalidades do serviço que ele exige do seu povo.

O conflito estoura precisamente entre Israel ou a Igreja e Deus, porque cedo ou tarde os fiéis pensam poder encerrar Deus em sua revelação, ou atá-lo a certas pessoas ou coisas e assim se tornando os senhores para, e finalmente, sob pretexto de servir a Deus, servir-se a si mesmos. O povo de Deus seja Israel ou a comunidade cristã, tende a querer dispor de seu Senhor, e acontece muito freqüentemente que, através de festas religiosas esplendidas, de ofertas múltiplas, de orações abundantes, ele só procura a própria satisfação e, sob o manto de uma religião aparentemente edificante, ele se adora a si mesmo.

Ai entram em ação os profetas comissionados por Deus, e neste trabalho em especial, o profeta Malaquias, para recolocar o povo escolhido em face das exigências, bem como das promessas do verdadeiro Deus. Deus é Deus zeloso e não tolera partilha.

No período pós-exílico, percebemos que não ouve proibição ao culto a Deus. Pelo contrário, houve um incentivo que também incluiu a reconstrução do templo em Jerusalém e a devolução dos utensílios da casa do Senhor. É neste contexto que vai surgir o profeta Malaquias, não requerendo o direito de adorar a Deus, mas advertindo quanto a maneira como Deus era adorado.

[1] FANINI, Nilson do Amaral. Dez Passos Para Uma Vida Melhor. 1979. p. 26.

[2] LAHR, C. Manual de Filosofia. 1969. p. 371.

[3] Op. cit. p. 41.

[4] DIMARZIO, Nilson. Como Cultuar a Deus. 1987. p. 98.

[5] ALLMEM, J. J. Von. O Culto Cristão: Teologia e Prática. 1968. p. 141.

Fechar Menu
%d blogueiros gostam disto: