ANÁLISE BÍBLICA DO BATISMO COM O ESPÍRITO SANTO

Na atualidade, o tema Batismo com o Espírito Santo tem sido motivo de muitos debates e discussões nas faculdades, seminários e institutos teológicos, sem contar com as inúmeras divisões geradas na Igreja de Jesus Cristo no século XX, muitas vezes decorrentes de uma exegese equivocada e de uma hermenêutica desprovida de princípios basilares para uma boa compreensão e aplicação atual do texto bíblico.

O grande ponto de tensão com os pentecostais é a resposta ao questionamento a respeito da existência ou não de um Batismo com o Espírito Santo posterior e distinto da conversão.

O movimento pentecostal, surgido no início do século nos Estados Unidos, e cuja maior representante brasileira é a Igreja Assembléia de Deus, defende a doutrina de que todo crente deve buscar a experiência de um batismo com o Espírito Santo posterior à conversão, cuja evidência inicial se dá com o falar em outras línguas.

Ex positis, os objetivos principais desta monografia são: 1o – avaliar a doutrina pentecostal do Batismo com o Espírito Santo, buscando confrontá-la com o texto bíblico, visando uma melhor compreensão do tema; 2o – Defender uma interpretação, ao nosso ver mais correta, das passagens bíblicas utilizadas como base para essa doutrina; 3o – Buscar na Bíblia  explicação e respaldo para as experiências espirituais que tem frequentemente ocorrido na vida de muitos irmãos em momentos posteriores à conversão, propondo uma modificação terminológica para as referidas experiências, que os pentecostais chamam de batismo com o Espírito Santo.

Sabemos da dificuldade em abordarmos este tema, pois embora muitos venham a concordar com o nosso ponto de vista hermenêutico, outros certamente irão balbuciar palavras de indignação ao lê-lo. Entretanto, o nosso objetivo não é contender nem dividir, mas, com amor, lutar para que a Igreja de Jesus chegue “à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não sejamos mais meninos, inconstantes, levados ao redor por todo vento de doutrina” (Ef 4:13).

            II – BREVE HISTÓRICO DOS MOVIMENTOS DE AVIVAMENTO DO SÉCULO XX

Na história da igreja existiram pelo menos três grandes movimentos de avivamento espiritual no século XX.

O movimento pentecostal[1] foi o primeiro deles, e chama-se de pentecostal qualquer denominação ou grupo cuja origem histórica remonta o avivamento pentecostal que começou nos Estados Unidos em 1901 e que sustenta posições segundo as quais o batismo com o Espírito Santo é normalmente um evento subseqüente à conversão, e que este se evidencia pelo sinal de falar em línguas. Defendem também que todos os dons espirituais mencionados no Novo Testamento devem ser buscados e usados atualmente.

No Brasil, o grupo pentecostal mais proeminente é a Assembléia de Deus, que iniciou o seu ministério no Estado do Pará no início do século.

Os carismáticos fazem parte da segunda onda de renovação, ocorrida entre as décadas de 60 e 70. Defendem o exercício de todos os dons  espirituais mencionados no Novo Testamento e permitem diferentes pontos de vista quanto à questão de ser o batismo com o Espírito Santo posterior à conversão  e de serem as línguas um sinal do batismo com o Espírito Santo. Os carismáticos muitas vezes se abstêm de formar sua própria denominação, mas se vêem como força para a renovação dentro das igrejas existentes, protestantes ou católicas.

O terceiro movimento de avivamento no século XX foi  na década de 1980, chamado de “a terceira onda” por C. Peter Wagner, professor de missões no Fuller Seminary. Os adeptos da “terceira onda” incentivam a capacitação de todos os crentes para usar os dons espirituais do Novo Testamento hoje e dizem que a proclamação do evangelho deve normalmente ser acompanhada por “sinais, prodígios e milagres”, de acordo com os padrões neotestamentários. Entretanto, ensinam que o batismo com o Espírito Santo ocorre no momento da conversão e que as experiências posteriores devem ser chamadas de “enchimento do Espírito Santo”.

III -A DOUTRINA PENTECOSTAL DO BATISMO COM O ESPÍRITO SANTO

            a) As principais correntes doutrinárias

            Um dos maiores debates teológicos da atualidade é a questão da disponibilidade ou não do batismo com o Espírito Santo. De um lado estão aqueles que acreditam que o batismo com o Espírito Santo está a disposição dos crentes atuais, mas apenas como parte da conversão. Por outro lado, os pentecostais afirmam que o batismo com o Espírito Santo não só está disponível, mas que se trata de uma experiência distinta da regeneração.

            Além desse debate, existe a questão das evidências sobrenaturais ocorridas ou não, após o batismo com o Espírito Santo.

            John W. Wyckoff [2]dividiu a questão do batismo com o Espírito Santo e de suas evidências em quatro posições doutrinárias existentes na atualidade:

            1a  –  Há os que pensam ser o batismo com o Espírito Santo parte da experiência da conversão, sem qualquer evidência inicial, como o falar em outras línguas, posição defendida , v.g,, pelas igrejas vinculadas à Convenção Batista Brasileira .[3] ;

            2a – Há os que admitem o batismo com o Espírito Santo como parte da conversão, sempre acompanhado pela evidência especial do falar em outras línguas. Esta posição é adotada por alguns grupos pentecostais da Unicidade;

            3a – Em terceiro lugar há os que defendem o batismo no Espírito Santo como uma experiência geralmente ocorrida após a regeneração, mas cuja experiência nem sempre é acompanhada pelo falar em outras línguas, posição essa adotada pelos grupos oriundos do movimento da Santidade, como a Igreja do Nazareno;

            4a – Por fim, o grupo dos que defendem o batismo com o Espírito Santo como uma experiência geralmente acompanhada pela evidência especial do falar em outras línguas. Esta á a posição de igrejas pentecostais como as Assembléias de Deus.

            É a análise desse último posicionamento doutrinário um dos objetivos do presente trabalho. Assim sendo, passaremos a tratá-lo no proximo tópico.

b) Argumentos Pentecostais para a doutrina do B.E.S[4]

            Os pentecostais alegam primeiramente que os discípulos de Jesus eram crentes nascidos de novo muito antes do dia de Pentecostes, talvez durante a vida e o ministério de Jesus, mas com certeza na hora em que Jesus, após a sua ressurreição, “soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo” , cf. Jo 20.22.

            Como segundo passo para justificar a sua doutrina, os pentecostais argumentam que Jesus ordenou aos seus discipulos que “não se ausentassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai”(At 1.4), dizendo-lhes: “sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias (At 1.5), afirmando também que: “recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo”.

             Quando chegou enfim o dia de Pentecostes, línguas de fogo pousaram sobre eles, “todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem” (At 2.4). Para os pentecostais isso mostra claramente que eles receberam um batismo no (ou com o )[5]  Espírito Santo e que embora os discípulos fossem nascidos de novo muito antes do Pentecostes, nesse dia eles receberam um “batismo com o Espírito Santo” que resultou em grande capacitação para o ministério e também no falar em línguas como evidência inicial desse batismo.

            Para justificar a validade desse padrão, segundo o qual as pessoas primeiro nascem de novo e mais tarde são batizadas com o Espírito Santo os pentecostais utilizam passagens como Atos 8, onde os Samaritanos se tornaram cristãos quando “deram crédito a Filipe, que os evangelizava a respeito do reino de Deus e do nome de Jesus Cristo” (At 8.12), mas só mais tarde receberam o Espírito Santo quando os apóstolos Pedro e João vieram de Jerusalém e oraram por eles (At 8.14-17) .

            Outra passagem muito utilizada pelos pentecostais é Atos 19, em que Paulo chegou até a cidade de Éfeso e encontrou “alguns discípulos”(At 19.1). Entretanto, “impondo-lhes Paulo as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo; e tanto falavam em línguas como profetizavam”(At 19.6).

            Com base nos textos acima citados e, às vezes, com base no capítulo 10 de Atos, que fala da conversão de Cornélio, os pentecostais argumentam que os crentes atuais, assim como os apóstolos, devem pedir a Jesus um “batismo com o Espírito Santo” e, desse modo, seguir o padrão de vida dos discípulos. Argumentam também que se recebermos o aludido B.E.S, isso resultará em muito mais poder para o ministério em nossa vida, exatamente como aconteceu na vida dos discípulos, e também no falar em línguas como evidência inicial.

[1] Embora estejamos fazendo um breve histórico dos principais movimentos avivalistas do século XX, iremos nos deter apenas na análise da doutrina do Batismo com o Espírito Santo defendida pelo movimento pentecostal tradicional, iniciado nos EUA no início do século.

[2]  In Teologia Sistemática, uma perspectiva pentecostal, CPAD, pg. 432

[3] O autor do presente trabalho tentará comprovar a validade dessa posição doutrinária

[4] B.E.S será a sigla utilizada quando nos referirmos ao Batismo com o Espírito Santo

[5] Não importa muito se traduzimos a frase grega en pneumati por “no Espírito”ou “com o Espírito”, porque ambas são traduções aceitáveis e parece que pessoas em todos os lados desse assunto usam essas duas expressões indiferentemente

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