CRISTOLÓGIA DE AGOSTINHO

Ao estudarmos o pensamento de Agostinho, percebemos que ninguém representou o Ocidente como ele. Agostinho deu os fundamentos de tudo o que o Ocidente tinha para dizer. Sua influência estende-se não apenas pelos próximos mil anos, mas sobre todos os períodos desde então. Sua influência foi tão grande na Idade média que até mesmo os que se opunham a seus pensamentos, terminologia teológica e método – que eram os dominicanos com a ajuda de Aristóteles – citavam-no com freqüência. Tomás de Aquino, grande oponente do agostinianismo na idade Média, citou-o afirmativamente inúmeras vezes.

            Os reformadores referiam-se constantemente a Agostinho na luta contra a Igreja Romana. Exerceu profunda influência na filosofia moderna, começando por Descartes e sua escola, e passando por Espinosa. Também influenciou a teologia moderna. Podemos traçar essa linha de pensamento que parte de Agostinho, até os franciscanos da Idade Média, e vê-la passando pelos reformadores, pelos filósofos dos séculos dezessete e dezoito, chegando aos filósofos alemãs clássicos, incluindo Hegel, e terminando na atual filosofia da religião. O agostinianismo expressa-se numa filosofia da religião baseada na imediatez da verdade em cada ser humano, e numa filosofia empírica da religião, que seria, certamente, uma contradição em termos. (TILLICH, 2000, P. 117).

            Aurélio Agostinho nasceu no dia 13 de novembro de 354, em Tagaste, hoje Souk-Aras, na província romana da Numídia. Seu pai, Patrício, era pagão e exercia cargo público municipal. Só recebera o batismo pouco antes da morte, em 371. Sua mãe, Mônica, ao contrário, era cristã fervorosa e convicta. Parece que ela ambicionava um futuro brilhante para seu filho que o percebia bem dotado. (FRANGIOTTI, 1992, p. 79).

            A vida de Agostinho pode ser dividida em dois períodos claramente distintos: antes da conversão e depois da conversão. Antes da conversão, concentra seu interesse sobretudo na sagrada Escritura e na teologia.

            Quanto a educação de Agostinho foi estritamente humanística, feita de gramática e retórica. Tendo iniciado os estudos em Tagaste, foi completá-los em Cartago, onde depois da leitura do Hortêncio (uma introdução à filosofia) de Cícero, começou a interessar-se também pela filosofia. (MONDIN, 1982, p. 135-136). Ambrosio por sua vez, com suas pregações também iluminou o caminho de Agostinho para vencer as dúvidas deixadas pelo maniqueísmo, especialmente quanto às críticas referentes ao Antigo Testamento, que lhe parecia chocante no plano moral. Empregando idéias neoplatônicas, Ambrósio ajudou Agostinho a compreender que a filosofia neoplatônica tinha elementos para vencer o maniqueísmo e que, ao mesmo tempo, era compatível com o cristianismo. Assim, em 386, Mânlio Teodoro, neoplatônico cristão, o desperta para as obras de Plotino. Agostinho vencerá seu ceticismo pela leitura da tradição latina das obras de Plotino. Essa leitura o ajudou a fazer grande progresso intelectual e tornou-se para ele verdadeira revelação de um mundo espiritual no qual Deus era a fonte única de todo bem e realidade total. “Esta leitura lhe revelou ser Deus substância puramente espiritual e não ser o mal uma substância, proporcionando-lhe grande progresso intelectual. O presbítero Simpliciano, de orientação neoplatônica, futuro sucessor de Ambrósio na sede episcopal de Milão, fez-lhe entender como a especulação sobre o Logos no prólogo de São João remata a doutrina de Plotino acerca do nõus. Assim, a filosofia lhe abriu acesso à fé no Deus-Logos eterno. Mediante o mesmo Simpliciano percebeu, outrossim, a importância da leitura das epístolas paulinas, que lhe revelaram ser a graça o único meio para atingir o homem e meta almejada, a união com Deus na fé, a qual pretendera, como neoplatônico, alcançar por meio de meditação filosófica”. (FRANGIOTTI, 1992, p. 80).

Em Cartago, a filosofia então dominante era maniquéia (materialismo e dualismo); Agostinho não tardou em fazer-se ardoroso defensor deste sistema, com grande desgosto para sua mãe. Aos dezenove anos começou a ensinar retórica em Cartago, rodeado por um grupo de discípulos inteligentes e por muitos amigos, mas também por alunos indisciplinados. O comportamento destes e o desejo de fama moveram Agostinho a transferir-se para Roma. Assim, depois de dez anos de ensino em Cartago, deixou a cidade em 383 e foi para Roma.

            Neste período seu entusiasmo pelo maniqueísmo fora diminuindo lentamente. Em Roma, abandonou definitivamente este sistema para abraçar, por um breve período, o cepticismo da Academia.

            Portanto, depois de um ano em Roma, foi para Milão, onde Símaco lhe oferecera a Faculdade de Retórica. Em Milão, leu Plotino e sentiu-se fascinado pelo seu ensinamento sobre a incorporeidade de Deus e a imortalidade da alma. Assim, de céptico, tornou-se logo neoplatônico. Mas a leitura do apostolo Paulo e os contatos com Ambrósio, bispo de Milão, convenceram Agostinho de que a verdade não estava nos livros dos filósofos, mas no Evangelho de Jesus Cristo.

Fechar Menu