A CRISTOLOGIA GNÓSTICA

Gnosticismo é o nome aplicado a várias escolas diferentes de pensamento que surgiram nos primeiros séculos da era cristã. No que tange à gnose cristã, este se refere à tentativa de incluir o cristianismo num sistema geral filosófico-religioso. Os elementos mais importantes neste sistema eram certas especulações místicas e cosmológicas, além do marcado dualismo entre o mundo do espírito e o mundo material.

            Anterior ao próprio cristianismo, o gnosticismo representou um movimento de características místicas, para o qual convergiam tendências diversas, com raízes na ciência sagrada do Egito e na filosofia grega. (GONZALEZ, 1994, p. 97).

Os pais Eclesiásticos concordavam que o gnosticismo iniciou com Simão, o mágico, em Atos (Cap 8: 9-11); no mais seus relatos divergem. Segundo um certo Hegesipo, citado por Eusébio, o gnosticismo principiou entre certas seitas judaicas. Pais Eclesiásticos posteriores a Irineu, Tertuliano e Hipólito, por sua vez, sustentavam a opinião de que a filosofia grega de Platão, Aristóteles, Pitágoras e Zenão, era a principal fonte da heresia gnóstica. Se aqui nos limitamos ao gnosticismo que se desenvolveu em solo cristão, estes relatos não são necessariamente contraditórios, pois este tipo de gnosticismo era um sistema sincrético que combinava correntes de pensamento opostas entre si.

Quando falamos de gnosticismo, em geral pensamos nos sistemas que se desenvolveram no período cristão, na «heresia gnóstica» que os pais Eclesiásticos combateram com tanto empenho. Mas o gnosticismo já existia quando o cristianismo surgiu; era então fenômeno religioso um tanto vago, uma doutrina especulativa de salvação com contribuição de várias tradições religiosas diferentes. Veio do oriente, onde foi influenciado pelas religiões  da Babilônia e da Pérsa. Os mitos cosmológicos atestam sua origem babilônica, enquanto seu dualismo extremado o relaciona com a religião da Pérsa. O mandenismo é um exemplo de formação religiosa gnóstica na área da Persa. Subseqüentemente o gnósticismo aparece na Síria em solo judaico, particularmente na Samaria, e lá assumiu coloração judaica. Foi esta a forma de gnosticismo existente por volta do início da era cristã e que os apóstolos encontraram com Simão, o mágico, que andava pela Samaria. Daí em diante começou a desenvolver-se uma escola gnóstica dentro da esfera cristã, com elementos derivados do cristianismo. Em vista dessa semelhança, o gnosticismo não surgiu como inimigo do cristianismo. Pelo contrário, procurava, ao invés disso, reunir elementos cristãos a outros elementos especulativos já presentes nele numa espécie de sistema religioso universal. Foi nesta forma que o gnosticismo surgiu no segundo século, com seus principais expoentes na Síria, entre os quais Saturnino. Ele aparece no início do segundo século, e cujo sistema gnóstico revela influência oriental. Outro principal expoente do gnosticismo foi Basílides que trabalhou no Egito por volta do ano 125 d.C., seu gnosticismo tinha natureza mais filosófica, e a influência grega era mais forte. Outro expoente foi Valentino, que pregou em Roma de 135 a 160, apresentando uma formação clásica do sistema gnóstico. A contribuição grega também é importante em sua obra. Marcião também foi incluído entre os gnósticos pelos pais Eclesiásticos, uma vez que sua doutrina é similar ao gnosticismo em vários pontos. Por esse motivo ele foi considerado também com um pensador gnóstico. (HAGGLUND, 1973, p. 27-28).

O termo “gnosticismo” vem da palavra grega “gnosis”, que quer dizer “conhecimento”. Segundo os gnósticos, sua doutrina era um conhecimento especial, reservado para quem possuísse verdadeiro entendimento. Além disso, parte dessa doutrina consistia na chave secreta mediante a qual se alcança a salvação. A salvação era a preocupação principal dos gnósticos. Baseados em muitas doutrinas que circulavam nesta época, os gnósticos criam que tudo que fosse matéria era necessariamente mau. O ser humano, segundo eles, é um espírito eterno que, de algum modo, ficou encarcerado neste corpo. Já que o corpo é cárcere do espírito, e já que nos oculta a nossa verdadeira natureza, o corpo é mau. O propósito último do gnosticismo é, então, escapar deste corpo e deste mundo material no qual estamos como que exilados.

Os gnósticos afirmavam que originalmente toda realidade era espiritual, isto é, só existia apenas um mundo espiritual. Com esse propósito foram criados vários seres espirituais.

O que sucedeu foi que Sofia ou sabedoria – assim se chamava aquele ser espiritual – quis produzir algo por si só, e o resultado foi um “aborto”. Esse é o nosso mundo: um aborto do espírito, e não uma criação de Deus, mas – continuam os gnósticos – já que este mundo foi criado por um ser espiritual, ficam nele algumas “chispas” ou “porções” do espírito. Estes elementos espirituais são os que estão encerrados dentro dos corpos humanos, e que é necessário libertar. (GONZALEZ, 1994, p. 97).

Por fim, segundo os gnósticos, nem todos os seres humanos têm espírito. Alguns são apenas seres carnais que, portanto, estão irremediavelmente condenados à destruição quando este mundo físico for destruído. Quanto aos espíritos encarcerados dentro dos “espirituais”, no final serão salvos, porque sua natureza é espiritual e necessariamente têm volta para o reino do espírito. Desta forma oç gnosticismo foi apenas mais uma entre as diversas formas de expressão da fé cristã. A distinção entre esses diversos movimentos está baseada “na sua liderança, mensagem e ênfase”. (HINSON; SIEPIERSKI, 1991, p. 12).

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